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COLUNA: Kátia Abreu, globalismo e a cegueira nacional

Carlos Júnior

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 é uma tremenda perda de tempo. A não ser para gerar algum factoide com o objetivo de incriminar o governo Bolsonaro em um país com um Judiciário que não respeita a própria Constituição, não há outra razão para a sua existência. Com muita boa vontade, ela pode chegar em prefeitos e governadores corruptos, mas pelo andar da carruagem teremos pizza da boa.

Como palanque oposicionista, tem-se nessa CPI uma ótima oportunidade de aparecer. E os congressistas não a perdem de vista. A senadora Kátia Abreu (PP-TO) fez um discurso enfadonho recheado de ataques ao ex-chanceler Ernesto Araújo. Repetiu inúmeros chavões e fez uma defesa apaixonada da China – como se ela tivesse sido eleita pelo povo chinês.

Não me interessa refutar as bobagens ditas pela senadora – elas são lugar-comum na boca de jornalistas e comentaristas políticos que dominam o mainstream. Mas a sua falta de conhecimento sobre geopolítica e da real situação do mundo é digna de nota e cabe alguns comentários pertinentes.

Kátia Abreu usou o termo ‘’globalismo’’ e logo em seguida expressou sua falta de conhecimento do tema, como se estivesse tendo com ele o primeiro contato. Bom, globalismo é nada mais que um projeto de poder com objetivos de dominação global. Desde a antiguidade há iniciativas nesse sentido, mas o uso da palavra nos dias de hoje faz clara referência a três: o globalismo ocidental, o esquema russo-chinês e o bloco islâmico.

O primeiro é composto por banqueiros e megainvestidores que querem a instauração de um governo mundial através da eliminação das soberanias nacionais. Para tal objetivo ser alcançado é necessário (I) tornar o Estado-nação frágil externamente, (II) aumentar o poder da burocracia estatal internamente, (III) eliminar o capitalismo nos moldes de livre iniciativa e (IV) apagar da memória as raízes culturais e religiosas de cada país. Não por acaso os movimentos revolucionários foram e continuam sendo amplamente financiados por membros da elite financeira ocidental. As entidades que melhor expressam ações, ideias e objetivos desse projeto são o Club Bilderberg, o Council on Foreign Relations e a Comissão Trilateral.

O esquema russo-chinês tem em sua composição a elite governante da Rússia e da China, ou seja, os remanescentes dos regimes comunistas em ambos os países. Burocratas, políticos, agentes de inteligência e toda-sorte de apadrinhados estatais integram essa elite. Como tal, seus objetivos de dominação global são eminentemente militares: destruir os Estados Unidos e subjugar o resto do mundo ao seu poder, e para jogar as nações contra o poderio americano, caracteriza-o como imperialista e descreve o país como encarnação perfeita do materialismo hedonista advindo do iluminismo. A Rússia pretende cativar o mundo com uma falsa mensagem de cristianismo ortodoxo em oposição ao liberalismo moral, e a China tem o dinheiro para comprar os que ainda são recalcitrantes ao projeto.

Como é de cunho religioso e age conforme os ensinamentos tradicionais de sua religião, o bloco islâmico raciocina em termos religiosos, e é composto por intérpretes dos mandamentos corânicos e políticos que os seguem. Seu objetivo é nada mais que o Califado Mundial, ou seja, varrer do mapa todas as outras religiões e converter todos os indivíduos ao islamismo. Existe a possibilidade de um conflito armado entre o bloco e as demais nações, mas o campo de atuação é o intelectual no sentido de espalhar a fé aos poucos, até que os demais acordem muçulmanos sem se dar conta do que aconteceu. Tal processo está muito bem documentado no livro A Conquista do Ocidente: o Projeto Secreto dos Islamitas.

Ambas as facções têm seus objetivos muito bem documentados em livros, manifestos, declarações dos seus próprios representantes e tutti quanti. Ao seu dispor está um exército de políticos, burocratas, intelectuais e jornalistas com a missão de enfiar goela abaixo da população os valores que estejam em conformidade com a pauta globalista. No caso do jornalismo a função é dupla: além de realizar o serviço anteriormente citado, há a função de jogar para debaixo do tapete a existência do fenômeno. Como vivemos em um país no qual a população menos instruída continua a acreditar no que sai na imprensa – e desacreditar o que não sai –, o globalismo continua um assunto restrito a intelectuais e políticos cientes da coisa.

Quando alguém fala de interesses chineses ou brasileiros, por exemplo, está lançando mão de uma figura de linguagem. Não há interesse determinado de um país, pois as nações e os governos não são agentes históricos. Um agente histórico necessita de objetivos permanentes ou de longo prazo e ter a capacidade de prosseguir a execução desses objetivos para além da existência finita dos seus agentes individuais – condições atendidas pelos três esquemas globalistas.

Ora, nenhum país atende a tais requisitos – a não ser os dois componentes do esquema russo-chinês. A maioria dos comentaristas políticos e analistas raciocinam assim por darem como verdade inquestionável a doutrina Morgenthau, na qual as nações agem na história. Seu grande defensor foi o ex-presidente americano George W. Bush – o que basta para desacreditá-la imediatamente.

Pergunte a qualquer indivíduo que detenha algum cargo ou posição importante no Brasil sobre a existência do governo mundial ou dos três esquemas globalistas. Duvido muito que algum saiba algo a respeito, e se sabe manterá um malicioso silêncio com o objetivo de se passar por desentendido. Não sei em qual categoria a senadora Kátia Abreu se encaixa. O que sei é que a cegueira tipicamente nacional faz com que ela e tantos outros figurões do establishment reverberem a ideia de que o globalismo é uma teoria da conspiração. E assim os brasileiros seguem sem compreender a realidade.


Referências:

1.https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/flavio-gordon/metacapitalismo-bilionarios-financiam-esquerda/

2.https://www.youtube.com/watch?v=JYu8vpDTqIE&t=569s

3.https://ipco.org.br/licoes-passado-e-o-eurasianismo-esoterico-de-aleksandr-dugin/#.XMj-HOhKjIU

4.https://www.dw.com/pt-002/irmandade-mu%C3%A7ulmana/t-38505523

Comentários

Jornalista. Escreve sobre politica brasileira e americana com análises não vistas na grande mídia.

Política

Parecer foi alterado após acordo entre membros do G7 na véspera da apresentação.

Congresso

Renan Calheiros distribuiu a senadores o texto provisório do parecer final.

Judiciário

PGR opinou pela manutenção da medida, mas contra divulgação dos dados colhidos pela comissão.

Congresso

Texto de Renan Calheiros seria lido na terça (19), mas agora segue sem data definida.