Lula foi muito mal na entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, nesta quinta-feira (27). A condução da sabatina foi piorando com o passar do tempo. Não houve um grande momento que tenha provocado uma boa impressão. Uma resposta ruim foi puxando outra. Algumas afirmações abriam problemas que não existiam antes da própria resposta e, no fim, o presidente parecia mais preocupado em tirar o corpo fora do que em apresentar uma linha convincente para mais quatro anos de governo.
O ponto do caso Roberta Luchsinger é, talvez, o melhor exemplo de como Lula criou um problema para si mesmo ao tentar se defender. Lula poderia ter dito que não tinha relação íntima com a lobista amiga de Lulinha, explicado em que circunstância a encontrou ou simplesmente delimitado o contato. Confrontado sobre o assunto, disse que não a conhecia e que nunca tinha visto essa mulher na vida, mas existem fotografias dos dois juntos em diversas ocasiões. Foto não comprova amizade, muito menos qualquer irregularidade, mas será explorada justamente porque Lula escolheu uma negativa categórica quando havia espaço para uma resposta politicamente mais estratégica.

Quando o assunto chegou aos vazamentos, sobrou para a Polícia Federal. Lula, dessa vez, vale lembrar, não está reclamando de uma PF comandada por Bolsonaro, Temer ou qualquer adversário. Está falando da Polícia Federal durante o seu governo. Se considera que existem vazamentos indevidos dentro da instituição, a cobrança inevitavelmente recai diante da sua própria administração.
A parte mais frágil da entrevista se deu quando o assunto foi Economia. Como antecipou, com exclusividade, o Conexão Política, o Brasil registra o maior rombo fiscal de todos os tempos, além do maior endividamento familiar da história. Lula se enrolou ao tratar de resultado fiscal e dívida pública e fez afirmações que entram em choque com números oficiais. Esse é um terreno bem complicado para improvisação. Déficit, superávit e dívida não dependem da interpretação mais conveniente numa entrevista. Existem séries históricas, metodologias e números protocolados. O presidente tentou criar projeções sem respaldo e recorreu ao passado para tentar sustentar gastos da atuação gestão. O petista entregou a pauta de bandeja para a oposição, que sequer precisará construir uma super narrativa em torno da abordagem performada no JN. Bastará colocar as declarações lado a lado com os dados oficiais.
Receba notícias do Conexão Política no seu WhatsAppReceba notícias do Conexão no WhatsAppEm outro momento, Lula falou de infraestrutura abandonada quase como se estivesse descrevendo um país que recebeu ontem. Mas ele está no quarto ano deste mandato. Antes disso, já governou por oito. A essa altura, apontar uma obra desolada é também reconhecer que ela continuou abandonada durante o seu atual governo.

O mesmo vale para os Correios. Lula prometeu recuperar a empresa diante de uma deterioração financeira que está ocorrendo agora, justamente com ele no poder. A estatal vive o pior momento desde a sua fundação. É difícil transformar isso numa promessa de futuro sem que venha imediatamente a pergunta sobre o presente. Se é preciso recuperar agora, o que aconteceu nos últimos anos de Lula 3? O Planalto está vazio? O volante da República está sem motorista?
Carlos Lupi foi outro caso em que Lula escolheu a defesa. O ex-ministro deixou a Previdência no auge da crise dos descontos indevidos do INSS, e o presidente preferiu sustentar sua atuação. Pode fazê-lo. Mas, ao fazer isso, assume também o custo político de explicar a demora do governo diante de um esquema que atingiu aposentados e pensionistas.
Na segurança, Lula disse precisar da PEC da Segurança Pública para criar um Ministério da Segurança Pública. Isso não é verdade. A PEC pode ser necessária para as mudanças constitucionais que o governo pretende fazer no setor, sim, mas a criação de um ministério não depende dela. Se hoje considera indispensável ter um Ministério da Segurança Pública, ele dispõe de instrumentos suficientes para reorganizar a Esplanada. Lula, por sua vez, falou diversas vezes como uma espécie de candidato de oposição ao governo que ele próprio comanda.

Reclamou do que está ruim, prometeu recuperar o que piorou, disse o que ainda pretende criar e pediu mais tempo para entregar soluções. Esse discurso funcionaria melhor para alguém tentando chegar ao Planalto pela primeira vez. Lula já passou doze anos na Presidência e está terminando o terceiro mandato.
A defesa de Lulinha, como já esperada, produziu o paradoxo mais claro da entrevista. Lula repetiu que o filho deve ser investigado como qualquer cidadão e que a Polícia Federal e os demais órgãos devem fazer seu trabalho sem interferência. Até aí, a postura é institucionalmente correta. O problema veio logo depois, e várias vezes. Ao mesmo tempo em que dizia esperar pela investigação, Lula tratava as suspeitas como ilações, rejeitava as acusações e antecipava ter certeza de que o filho será inocentado. É difícil sustentar as duas posições sem alguma contradição. Ou se espera que a investigação estabeleça o que aconteceu, ou se anuncia previamente qual deverá ser a conclusão dela. Lula, sem sucesso, tentou fazer as duas coisas.
Foi, no conjunto, uma das piores sabatinas de Lula, se não a pior, justamente porque aconteceu em condição eleitoral, na maior emissora do país e em pleno horário nobre. O esquerdista saiu da conversa deixando mais flancos do que encontrou quando entrou. Para um presidente que pede mais quatro anos e insiste em persuadir o eleitor de que ainda tem que consertar o país de ponta a ponta, foi uma entrevista particularmente ruim e que nutrirá frutos amargos para campanha à reeleição.