Foto: Marcelo Camargo/ABr
Foto: Marcelo Camargo/ABr

Durante décadas, a Venezuela foi vista como um dos países mais prósperos da América do Sul, um vizinho rico impulsionado pela abundância de recursos naturais e pela força de sua indústria petrolífera. Esse quadro começou a se desfazer com a adoção de políticas econômicas de orientação socialista sob Hugo Chávez e se aprofundou de forma ainda mais severa durante o governo de Nicolás Maduro.

A dimensão da perda de riqueza enfrentada pela população venezuelana nas últimas décadas se assemelha à de países que passaram por conflitos armados de larga escala. Dados do Banco Mundial mostram que, nos anos 2000, o país se beneficiou fortemente da alta das commodities. O Produto Interno Bruto (PIB) per capita saltou de US$ 4.776 em 2000 para US$ 13.646 em 2010, período que marcou o auge da era Chávez, sustentada por preços elevados do barril de petróleo.

Por trás desse crescimento aparente, porém, a base da economia já começava a se fragilizar. A opção política por concentrar o controle econômico nas mãos do Estado, iniciada por Chávez e intensificada por Maduro, teve efeitos duradouros. Uma extensa onda de nacionalizações atingiu desde a estatal petrolífera PDVSA até setores como alimentos, telecomunicações e indústria, comprometendo a capacidade produtiva do país.

A administração política dessas empresas resultou em ineficiência, aumento da corrupção e fuga de capitais. O chavismo apostou na ideia de que a renda do petróleo seria suficiente para sustentar indefinidamente o modelo econômico adotado. O resultado foi o oposto. Enquanto outras economias avançavam, a Venezuela entrou em um processo de regressão profunda. Quando os preços internacionais do petróleo começaram a cair, as fragilidades da gestão estatal se refletiram de forma contundente nos indicadores econômicos.

Entre 2012, ano em que Maduro assumiu o poder após a morte de Chávez, e 2020, o PIB per capita despencou de US$ 12.607 para US$ 1.506. Em menos de dez anos, a riqueza média do venezuelano foi reduzida em quase 90%. Em termos práticos, o país retornou, em 2020, a níveis nominais de renda semelhantes aos registrados em 1973, apagando cerca de meio século de avanços econômicos em uma única década de crise.

O contraste se torna ainda mais evidente quando a trajetória venezuelana é comparada à de outras nações. Em 1990, a China apresentava um PIB per capita equivalente a apenas 13% do registrado na Venezuela. Naquele ano, cada chinês produzia em média US$ 319, enquanto o venezuelano alcançava US$ 2.452. O mesmo tipo de disparidade pode ser observado em relação ao Brasil. Em 1960, o PIB per capita brasileiro, de US$ 235, correspondia a cerca de um terço do valor venezuelano à época.

Décadas depois, o cenário se inverteu. Em 2024, a China registrava um PIB per capita de US$ 13.303, enquanto a Venezuela alcançava apenas US$ 4.218. Mesmo no auge do chavismo, o indicador brasileiro, também impulsionado pelo ciclo das commodities, já se aproximava do venezuelano, representando cerca de 80% daquele valor. No mesmo período, a renda média no Brasil já superava em mais do dobro a venezuelana, alcançando US$ 10.311.

Apesar de uma recuperação recente em alguns indicadores, a Venezuela segue distante do patamar que já ocupou no passado. Hoje, o país mantém uma renda média equivalente a aproximadamente um terço do que já foi em seu período de maior prosperidade.

Esse cenário persiste mesmo após a escalada de tensões internacionais e ações recentes dos Estados Unidos contra o regime, evidenciando que a crise venezuelana tem raízes profundas e estruturais, construídas ao longo de anos de decisões políticas com viés socialista que comprometeram de forma duradoura a economia nacional.