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Em carta aberta, pastores evangélicos cubanos pedem libertação de presos políticos no país

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Ricardo IV Tamayo | Unsplash

Por meio de uma carta aberta, veiculada na última sexta-feira (21), sete pastores evangélicos cubanos pedem a libertação de cidadãos presos por motivos políticos no país.

“Vimos com preocupação a detenção violenta e arbitrária contra um grupo de manifestantes pacíficos na boulevard de Obispo, em Havana, em 30 de abril”, inicia o texto.

No texto, os pastores cubanos lembram ao regime comunista que “o indivíduo, no uso das liberdades naturais conferidas por Deus (endossadas ou não pela entidade humana) pode manifestar sua liberdade de expressão em qualquer espaço” e que a Declaração Universal dos Direitos Humanos “consagra a liberdade de expressão e manifestação de que foi privado o grupo dos convocados em Obispo”.

Publicada na página do Facebook “Libertad y Conciencia”, a carta aberta foi assinada por líderes de diferentes denominações evangélicas, e denuncia que vários cubanos que participaram da manifestação na rua Obispo continuam “atrás das grades”.

Esteban Rodríguez, Luis Ángel Cuba Alfonso, Mary Karla Ares, Yuisán Cancio Vera e Inti Soto Romero foram detidos por protestarem contra o cerco que a ‘polícia política’ ordenou que se estabelecesse em torno da casa do artista dissidente Luis Manuel Otero Alcántara, que na época estava em greve de fome, e foi retirado de sua casa pelas forças repressivas e ainda está internado em um hospital em Havana.

“Exigimos ao Estado cubano a libertação imediata dos detidos de Obispo sem consequências jurídicas para eles ou para as suas famílias”, solicitam os líderes religiosos.

Segundo o portal ADN Cuba, Inti Soto Romero foi estudante de Teologia na esfera protestante. Fontes próximas à família de Yuisán Cancio Vera informaram ao Diario de Cuba que “o jovem frequentava a Igreja Metodista de El Vedado”.

“Também intercedemos pela vida de outros presos ou detidos por motivos políticos na Ilha. Um país sem consenso não pode ficar em paz, onde as opiniões de uns são lei e as de outros um crime”, conclui o texto, referindo-se a mais de uma centena de cubanos que atualmente se encontram privados da liberdade de expressar seu desacordo com o sistema comunista imposto em seu país.

Um dos signatários, Alejandro Hernández Cepero, considera que “o regime, em seu desejo desmedido de perpetuar-se no poder, declarou proibida qualquer tentativa de exercer o direito inalienável e intransferível de nos expressarmos com total liberdade”.

“Os jovens que na Rua Obispo se manifestaram pacificamente e exerceram seu direito à liberdade de expressão e que foram sequestrados impunemente pelas turbas de Castro não constituem um acontecimento isolado no preâmbulo do que poderia se tornar uma outra Primavera Negra, muito mais negra, aliás, do que o anterior”, disse um dos líderes religiosos ao Diario de Cuba.

Na carta, Hernández Cepero condena “o silêncio cúmplice da comunidade internacional” e insiste que “toda injustiça dos homens é pecado, e a quem muito foi dado, ainda mais será exigido. É função dos pastores e dos cristãos visitar os presos, os pobres, as viúvas, os órfãos e confortá-los, alimentá-los, vesti-los e levantar a nossa voz por aqueles que não têm voz. Por este e outros motivos, assino e apoio esta reivindicação”.

“Resta-me acrescentar que quando o ímpio dominar, o povo terá que gemer e o povo cubano gemeu há 62 anos”, conclui o pastor da Iglesia Aliá, da capital cubana.

A carta foi assinada por Yordanys Díaz (presidente da Igreja Cristã Reformada de Matanzas), Alejandro Hernández (pastor de Igreja Aliá, de Havana), Odalina Guerrero (pastor do Ministério Apostólico Internacional Corban, de Artemisa), Carlos Macías (pastor de a Igreja Metodista, de Matanzas), Jaisel Piñero (pastor evangélico da Igreja Sancti Spíritus), Yoel Demetrio (pastor da Igreja Missionária Internacional, de Las Tunas) e Alain Toledano (pastor do ‘Movimento Sendas de Justicia’, de Santiago de Cuba).

A declaração foi apoiada por vários líderes da comunidade religiosa cubana e milhares de usuários de redes sociais estão compartilhando, comentando e compartilhando dentro e fora da ilha.

Em Puerto Padre, na província de Las Tunas, o pastor da Igreja da Liga Evangélica de Cuba, Carlos López Valdés, alerta que a igreja cubana ainda é “discriminada, oprimida, coagida, deixada de lado como se faltasse virtudes e decoro, seus pastores foram perseguidos, foram presos, proibido de se reunir, templos foram demolidos, Bíblias foram queimadas, propriedades que não foram devolvidas até hoje foram confiscadas, a igreja foi caluniada na televisão, teve o direito de resposta negado, como um prisioneiro que recebe uma mordaça imposta nele”.

O líder religioso denuncia que o regime da ilha não leva em conta a Igreja “para legislar questões espirituais e morais que se revelaram contra a Bíblia e contra o consenso majoritário do povo”. Seus representantes, segundo ele, foram arbitrariamente proibidos de viajar ao exterior a eventos. Além disso, aponta que todos estão impedidos de dar ajuda material diretamente ao povo mesmo nos piores momentos de crise. “Não podemos ter uma gráfica ou espaço de rádio nem para orar pelo povo quando as igrejas estão fechadas por causa da pandemia”, disse Valdés.

No comunicado, escrito em seu perfil no Facebook, López Valdés afirma que “o que a Igreja pode fazer e faz hoje não foi um presente ou um privilégio do governo, foi uma conquista em meio à dor e à alienação. Milhares de cristãos cubanos sofreram junto a este povo, fazemos parte do povo oprimido e humilhado todos os dias pela incompetência e maldade de homens que estão acima da lei e vivem como ricos”.

“Cuba precisa de uma igreja que caminhe ao lado dela. Ouve-se o clamor de uma nação, ouve-se o apelo das mães sem leite para os seus filhos, dos homens que se sentem sem dignidade porque têm que mentir, têm que roubar, têm que fingir que continuam a sustentar a família. O lamento se ouve de mães que temem porque seus filhos se jogam ao mar ou emigram perigosamente. O grito de terror se ouve de quem não quer ver seus filhos apanharem e irem para a cadeia só por pensarem diferente. Hoje Cuba é um país onde cresce o ódio em vez do amor, onde cresce o descontentamento em vez da felicidade, onde a cada dia se cheira mais perto a prisão e a morte. Hoje Cuba é um estado de terror”, conclui o pastor.