Foto: Tomaz Silva/ABr
Foto: Tomaz Silva/ABr

O ex-ministro e ex-deputado federal Raul Jungmann morreu na noite de domingo (17), aos 73 anos, em Brasília. Ele estava internado no hospital DF Star para tratamento de um câncer no pâncreas, diagnosticado em meados de 2024. Ao longo de sua trajetória, Jungmann ocupou funções centrais em governos de diferentes espectros políticos, mantendo influência nos bastidores do poder até os últimos anos de vida.

Natural de Recife (PE), Jungmann iniciou sua militância política no antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), ainda durante a ditadura militar, e foi eleito vereador na capital pernambucana. Participou da fundação do PPS e, mais tarde, teve passagem pelo MDB e outras legendas. Seu histórico como opositor do regime de 1964 e seu trânsito entre diferentes campos ideológicos marcaram sua trajetória pública.

Atuação ministerial e passagem pelo Congresso

Jungmann foi ministro em cinco ocasiões. No governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), chefiou as pastas do Meio Ambiente, do Desenvolvimento Agrário e de Políticas Fundiárias. À frente da reforma agrária, ganhou projeção nacional durante um dos períodos mais tensos no campo, marcado pelo massacre de Eldorado do Carajás. Com perfil conciliador, enfrentou críticas tanto de ruralistas quanto do MST.

Em 2002, foi eleito deputado federal pelo PPS e exerceu mandatos entre 2003 e 2011 e, depois, de 2015 a 2016. Em 2017, foi nomeado ministro da Defesa pelo então presidente Michel Temer, com quem já mantinha interlocução. No ano seguinte, assumiu o recém-criado Ministério da Segurança Pública e comandou a intervenção federal no Rio de Janeiro. Durante sua gestão, ocorreu o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista, caso que classificava como expressão da “metástase do Estado paralelo”, em referência às milícias e ao narcotráfico.

Relação com as Forças Armadas e o Judiciário

Durante o governo Temer, estreitou relações com a cúpula das Forças Armadas, em especial com o general Eduardo Villas Bôas, então comandante do Exército. No Judiciário, atuou como interlocutor frequente em momentos de crise institucional. Em 2016, foi um dos signatários do pedido que impediu a posse de Lula na Casa Civil, decisão validada pelo Supremo Tribunal Federal, por meio do ministro Gilmar Mendes.

Mesmo fora do Executivo, manteve influência nos bastidores, sendo consultado por lideranças políticas em episódios de instabilidade durante o governo Bolsonaro. Em artigo publicado em 2021, alertou para riscos de ruptura institucional e antecipou cenários semelhantes ao que viria a ocorrer em 8 de janeiro de 2023.

Últimos anos e atuação no setor privado

Em 2023, assumiu a presidência de uma associação ligada ao setor de mineração, com foco em ações relacionadas à tragédia de Brumadinho (MG) e à agenda ambiental. Em 2024, ao descobrir tumores no pâncreas e no peritônio, deu início a um tratamento oncológico que se estendeu até 2025, quando passou à fase paliativa.

Apesar das limitações físicas, coordenou articulações para um novo marco legal das Forças Armadas, ao lado do ministro da Defesa, José Múcio. A iniciativa não foi concluída.

Vida pessoal e legado

Filho do jornalista Sylvio Jungmann da Silva Pinto, Raul iniciou, mas não concluiu, o curso de Psicologia, seguindo para a vida política. Era conhecido pelo bom relacionamento com a imprensa e por adotar um estilo narrativo e informal. Tinha dois filhos, Bruno e Júlia, e vivia em Brasília, com Natalie, sua companheira.