
O navio-hospital chinês Ark Silk Road deixou o porto do Rio de Janeiro nesta quinta-feira (15), após uma semana de permanência marcada por falta de transparência, alto nível de sigilo e desconforto diplomático. A embarcação, que oficialmente integra a Missão Harmony 2025, carrega equipamentos de sensores, radares e inteligência avançada, segundo apuraram militares brasileiros.
A visita foi autorizada pelo governo Lula após pedido formalizado pela China em setembro de 2025. No entanto, o documento diplomático entregue ao Itamaraty não mencionava missão humanitária, tampouco previa atendimentos médicos. A ausência de detalhamento gerou apreensão na Marinha e no Ministério das Relações Exteriores, principalmente diante do contexto geopolítico.
Navio com perfil de reconhecimento estratégico
Embora apresentado como navio hospitalar, o Ark Silk Road possui um número incomum de antenas e dispositivos de coleta de dados que, segundo militares, o qualificam para ações de reconhecimento de portos e do litoral brasileiro. O Brasil não mantém nenhum acordo bilateral com a China que permita operações do tipo, como existe com os EUA e países europeus.
Documentos obtidos via Lei de Acesso à Informação revelam que o pedido chinês à Marinha foi protocolado sem menção à operação Harmony 2025, que promove ações médico-humanitárias em 12 países da Oceania e América Latina. A única solicitação formal foi a permissão de atracação de 8 a 15 de janeiro.
O Consulado Geral da China no Rio de Janeiro limitou-se a declarar que a missão envolvia “intercâmbio de conhecimentos, treinamentos conjuntos e atividades culturais”.
Suspeitas e desconforto oficial
A situação teve divergências internas acentuadas entre diplomatas e militares brasileiros. Houve pressão para recepcionar com cortesia a delegação chinesa, incluindo jogos de futebol com oficiais da Marinha no Cefan, mas sem clareza de protocolo. Visitantes não foram autorizados a entrar espontaneamente no navio, e as listas eram controladas diretamente pelo consulado chinês.
O caso se agravou com a coincidência da presença de um navio norte-americano, o Ronald H. Brown, que é uma embarcação de pesquisa oceanográfica dos EUA e que foi autorizado a atracar em Suape entre 14 e 21 de janeiro.
Silêncio do governo brasileiro
O governo federal optou por discrição máxima. Ao contrário da visita à Nicarágua, onde o navio foi recebido com honras militares em novembro, em solo brasileiro não houve divulgação oficial ou cerimônia pública.
A Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro informou que não recebeu qualquer notificação sobre atendimento médico por parte da embarcação chinesa, e que a visita seguiu protocolos logísticos comuns. O CREMERJ (Conselho Regional de Medicina do RJ) enviou ofício cobrando esclarecimentos e registro formal de médicos estrangeiros a bordo.