Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
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O depoimento do banqueiro Daniel Vorcaro à Polícia Federal escancara os pontos obscuros da operação financeira envolvendo o Banco Master, o BRB e a empresa Tirreno. Segundo o relato prestado às autoridades, o Master comprou carteiras da Tirreno por R$ 6,7 bilhões e, poucos dias depois, as revendeu ao BRB por R$ 12,2 bilhões. O valor foi pago integralmente em dinheiro pelo BRB, mas nenhum centavo foi repassado à Tirreno.

A delegada responsável pelo caso questionou a origem dos ativos, já que a Cartos, citada por Vorcaro como originadora das carteiras e detentora de 25 anos de experiência no setor, negou qualquer cessão de créditos à Tirreno. A própria Tirreno, recém-criada em dezembro, não possuía histórico de movimentação financeira e tampouco recebeu pagamento do Master. Vorcaro reconheceu que a operação não foi concluída e disse ter firmado apenas uma promessa de transação, nunca executada.

Mesmo após o Banco Central alertar sobre os riscos da operação e a falta de documentação comprobatória, Vorcaro continuou negociando com a Tirreno. Relatório da PF aponta que, após o mês de abril de 2025, foram firmados outros 10 contratos entre Master e Tirreno, totalizando R$ 8 bilhões. O banqueiro afirma que isso ocorreu porque estava pressionando a parceira comercial para entregar a documentação dos ativos.

Ao ser questionado sobre a origem real dos papéis, Vorcaro alegou não saber de onde vinham as carteiras vendidas ao BRB. Ainda assim, admitiu que o presidente do banco público, Paulo Henrique Costa, com quem já mantinha relação comercial há cerca de um ano, sabia da inconsistência dos ativos desde maio de 2025. Apesar disso, as transações continuaram, com novos contratos sendo firmados e nenhum valor sendo devolvido.

A Polícia Federal apontou também que, mesmo após a operação ser desfeita formalmente, o dinheiro pago pelo BRB nunca foi efetivamente reembolsado. Vorcaro reconheceu que a devolução foi feita por meio de trocas contratuais e substituição de ativos, com parte dos papéis sendo acertada diretamente entre BRB e Tirreno, apesar de até então não haver qualquer vínculo contratual direto entre as duas instituições.

Segundo Vorcaro, os R$ 12,2 bilhões recebidos do BRB inicialmente seriam por carteiras de crédito consignado, com alta liquidez. Após a constatação de fraude, os papéis foram substituídos por ativos de menor liquidez e valor. Parte desses ativos vinha do Will Bank, do mesmo grupo do Master, liquidado pelo Banco Central em 21 de janeiro. Contudo, os pagamentos dos devedores dessas carteiras seguiam indo para o Will, que os repassaria ao Master e, por fim, ao BRB, o que, conforme Vorcaro, nunca aconteceu.