
Uma nova e volumosa leva de documentos divulgada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos trouxe novamente ao centro do debate público o nome de Jeffrey Epstein, financista condenado por crimes sexuais envolvendo mulheres menores de idade. Ao todo, mais de três milhões de arquivos passaram a integrar o acervo público do caso, ampliando de forma significativa o conjunto de informações já conhecidas sobre a rede de relações mantida por Epstein e por sua então companheira e associada, Ghislaine Maxwell.
Os documentos detalham contatos, convites, trocas de e-mails, fotografias e registros logísticos que envolvem figuras centrais da política, do empresariado, de Hollywood, do sistema financeiro e da realeza europeia. Parte relevante do material aponta que vários desses relacionamentos teriam sido mantidos mesmo após a condenação de Epstein, em 2008, por crimes sexuais, fato que aprofunda questionamentos sobre o grau de conhecimento, tolerância ou omissão por parte de pessoas influentes que continuaram a frequentar seu círculo.
Relações que atravessaram a condenação de 2008
Os arquivos indicam que Epstein permaneceu ativo socialmente durante anos após a condenação, mantendo trânsito entre líderes políticos, empresários bilionários, celebridades e membros da elite internacional. Registros mostram que encontros, jantares e trocas de mensagens seguiram ocorrendo em cidades como Nova York, Londres e em sua ilha privada no Caribe, frequentemente associada aos crimes investigados.
A permanência no circuito de poder é um dos pontos colocados em pauta por analistas e investigadores, por revelar não apenas conexões ocasionais, mas uma rede estruturada de contatos que resistiu à exposição pública de seus crimes.
E-mails entre Epstein e Elon Musk entram nos autos
Entre os novos documentos, chamaram atenção trocas de e-mails envolvendo o empresário Elon Musk, hoje uma das figuras mais influentes do setor tecnológico global. As mensagens, datadas de 2012, revelam conversas diretas entre Musk e Epstein, incluindo referências à ilha privada do financista.
Em uma das mensagens, Epstein pergunta qual seria “o dia ou a noite da festa mais animada” na ilha, ao que Musk responde em outro momento sobre a logística de um helicóptero, afirmando que estariam apenas ele e Talulah Riley, atriz e escritora britânica com quem se casou em duas ocasiões.
Os registros não esclarecem de forma definitiva se Musk chegou, de fato, a visitar a ilha. Após a divulgação, o empresário publicou uma defesa pública afirmando que teve “pouquíssima correspondência” com Epstein, que recusou convites para visitar a ilha ou voar no jato conhecido como “Lolita Express” e que reconhecia o risco de interpretações distorcidas sobre e-mails isolados.
A documentação, no entanto, confirma que havia um canal direto de comunicação entre os dois, reforçando a presença de Epstein em círculos empresariais de alto nível mesmo anos após sua condenação.
Fotografias inéditas flertam com a pressão sobre o ex-príncipe Andrew
Os novos arquivos também trouxeram à tona imagens inéditas do ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor, anteriormente conhecido como príncipe Andrew, irmão do rei Charles III. As fotografias mostram Andrew em interação íntima com uma mulher cuja idade não é identificada nos registros.
Em uma das imagens, ele aparece inclinado sobre a mulher deitada no chão; em outra, com a mão posicionada sobre o abdômen dela. Uma terceira pessoa, não identificada, surge apoiando os pés sobre uma mesa próxima. As imagens reforçam questionamentos antigos sobre a relação do ex-príncipe com Epstein e Maxwell.
A divulgação levou o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, a convocar Andrew para prestar esclarecimentos perante o Congresso dos Estados Unidos, ampliando o alcance institucional das consequências do caso.
Além das fotos, os documentos incluem um e-mail de agosto de 2010, no qual Epstein convida Andrew para jantar em Londres com uma “amiga”, descrita como uma “russa de 26 anos inteligente, bonita e confiável”. O convite ocorreu apenas dois anos após a condenação de Epstein por crimes sexuais, fato que intensificou críticas à manutenção do vínculo.
Relação entre Bill Clinton e Epstein
Os documentos também aprofundam informações sobre a relação do ex-presidente Bill Clinton com Epstein. Entre os arquivos, há fotografias inéditas que mostram Clinton em uma banheira de hidromassagem ao lado de uma pessoa descrita por funcionários do Departamento de Justiça como vítima de abuso sexual.
Além das imagens, uma série de e-mails anexados revela comunicações frequentes entre Maxwell e membros da equipe de Clinton entre 2001 e 2004. Segundo análise da CNN, foi nesse mesmo período que Clinton realizou diversas viagens utilizando aeronaves privadas associadas a Epstein.
Em resposta, o porta-voz do ex-presidente negou que Clinton tenha enviado qualquer um dos e-mails incluídos nos documentos. As mensagens tratariam, majoritariamente, de logística envolvendo viagens, jantares e convites de última hora, sem detalhamento sobre a natureza dos encontros.
Donald Trump aparece em lista do FBI sem comprovação
O novo lote de arquivos inclui ainda uma lista de alegações envolvendo o presidente Donald Trump, compilada pelo FBI. O material reúne ao menos doze denúncias recebidas pela agência, mas os próprios registros indicam que não há provas que sustentem formalmente as acusações.
As alegações mencionam supostos abusos ocorridos em Mar-a-Lago, envolvendo Epstein e Maxwell, mas são descritas pelos agentes como informações não verificadas, em alguns casos de “segunda mão”, com denunciantes não localizados ou sem dados de contato.
Um memorando de 2021 relata que uma vítima afirmou ter sido apresentada a Trump por Maxwell em uma festa, com a sugestão de que estaria “disponível”, mas declarou que “nada aconteceu”. Outras mensagens citam uma mulher que teria trabalhado em Mar-a-Lago ainda adolescente, mas novamente sem comprovação formal. Trump nunca foi formalmente acusado e nega todas as denúncias.
Outros nomes e a extensão da rede
Entre as milhões de páginas divulgadas, surgem ainda referências a figuras como o secretário de Comércio Howard Lutnick, que teria planejado visitar a ilha de Epstein em 2012, sem confirmação de que a viagem ocorreu. O empresário afirma não ter mantido contato com Epstein após 2005.
Outro nome recorrente é o de Steve Tisch, coproprietário do New York Giants e produtor de Hollywood, citado centenas de vezes nos documentos, principalmente em mensagens relacionadas a interações sociais.