
A eleição presidencial em Portugal, realizada no domingo (18), terminou sem definição no primeiro turno. António José Seguro (PS, centro-esquerda), ex-líder do Partido Socialista, e André Ventura (Chega, direita), presidente do partido Chega, foram os mais votados e disputarão o segundo turno, marcado para o dia 8 de fevereiro. Com 99,02% das urnas apuradas, Seguro recebeu 31,04% dos votos válidos, enquanto Ventura obteve 23,61%. Nenhum dos concorrentes atingiu os 50% exigidos para vencer em primeiro turno. É a primeira vez em 40 anos que os portugueses terão de retornar às urnas para definir o próximo presidente da República.
O sistema de governo em Portugal é semipresidencialista. O primeiro-ministro exerce a chefia de governo, mas o presidente da República, ainda que não comande diretamente o Executivo, possui funções constitucionais relevantes. Entre suas atribuições estão a nomeação do primeiro-ministro, a promulgação ou veto de leis, a convocação de referendos, o comando das Forças Armadas e a representação do país no exterior. Também possui a prerrogativa de dissolver a Assembleia da República e convocar novas eleições, embora essa medida jamais tenha sido adotada na história democrática recente do país.
A fragmentação do cenário político e o elevado número de candidaturas já indicavam a possibilidade de um segundo turno. Uma pesquisa boca de urna conduzida pela Universidade Católica para a RTP, divulgada no mesmo dia da votação, antecipava que Seguro e Ventura lideravam a disputa. Outros nomes tiveram votação expressiva, mas insuficiente para avançar. João Cotrim Figueiredo (IL, centro-direita) recebeu 15,88%, Henrique Gouveia e Melo (independente, direita) somou 12,36%, e Luís Marques Mendes (PSD, centro-direita) obteve 11,44%.
A eleição expôs a fragilidade da esquerda portuguesa no cenário atual. Durante a campanha, houve apelos para que candidaturas à esquerda fossem retiradas em prol de Seguro, na tentativa de evitar um segundo turno polarizado. A aposta no chamado voto útil foi a principal estratégia do ex-dirigente socialista, que centrou sua campanha na união do campo progressista como forma de barrar o avanço da direita.
As disputas legislativas anteriores ajudam a contextualizar o resultado. Desde 2019, o Chega passou de um único deputado para 60 parlamentares. O PS, que havia conquistado maioria absoluta com 120 cadeiras em 2022, caiu para 58 deputados. O Bloco de Esquerda (BE) reduziu sua representação de 19 para 1, e o Partido Comunista Português (PCP) passou de 12 para 3 deputados. A única exceção foi o Livre, legenda de centro-esquerda que ampliou sua presença na Assembleia de 1 para 6 cadeiras nas últimas eleições.